Não se sabe se é fato ou lenda,
mas conta-se que, ao ser obrigado pela Inquisição a negar sua
crença de que a Terra se movia em torno do Sol, Galileu Galilei teria
sussurrado "eppur si muove". Do ponto de vista simbólico, a frase manifesta
a insistência na convicção extraída das provas científicas contra a censura da fé, representando o registro
irresignado do gênio multifuncional em seu ponto de vista, mesmo tendo sido
constrangido a refutá-lo publicamente.
Provas
concretas de que ele realmente tenha feito esse registro não há, mas esse é um
episódio no qual a versão é mais importante do que o fato: não se contesta que
o pensamento hegemônico dos filósofos, cientistas e teólogos na ocasião era a Terra seria estacionária e, naturalmente, o centro
do universo. Pensamento diverso desse era qualificado como heresia e, nos tempos
da Santa Inquisição, podia levar as pessoas à fogueira. Assim, gênios como
Galileu, que ousavam seguir na contracorrente, eram conduzidos à retratação
pública como alternativa ao fogo do inferno.
O legado de
Galileu para a humanidade é inquestionável, e isso supera eventuais conjecturas
sobre eventual covardia em não persistir na defesa de suas convicções. Afinal,
creio que poucos teriam coragem de assumir uma posição de confronto contra o
poder clerical cravado não apenas no plano religioso mas, sobretudo, sobre os
governantes absolutistas que reinavam na ocasião. O certo é que, se dita a
frase (e aí é que situamos que a versão é o que importa, nesse caso), ela tem
um significado muito mais amplo: ninguém
pode mudar meus pensamentos e minhas convicções, nem mesmo com o uso da
violência. Externamente, o homem pode até se dobrar à opressão, exprimindo
coisas que não conjugam com o que pensa. Mas o que está dentro dele, só mudará
se ele quiser. No caso, aliás, o futuro deu completa razão a Galileu, e quem
teve que se retratar foram os seus detratores.
Eppur si muove quer tratar um
pouco disso. Das ideias que, muitas vezes, são rechaçadas apenas por não se
ajustarem o pensamento hegemônico, o que também podem levar seus autores ao
cadafalso, se não material, ao menos moral. Mas não há alternativa. A liberdade
de pensamento e de expressão ainda constituem os melhores remédios contra o
obscurantismo, que não existiu apenas na Idade Média. Está todos os dias à
nossa frente, percorrendo nossas ruas, nossas cidades, nossos empregos, nossos
tribunais. E a nós, os iconoclastas, resta apenas a irresignação e o eterno
inconformismo. Porque, apesar de tudo, a Terra continua em constante
movimento...
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