terça-feira, 18 de setembro de 2012

No entanto, ela se move...


Não se sabe se é fato ou lenda, mas conta-se que, ao ser obrigado pela Inquisição a negar sua crença de que a Terra se movia em torno do Sol, Galileu Galilei teria sussurrado "eppur si muove". Do ponto de vista simbólico, a frase manifesta a insistência na convicção extraída das provas científicas contra a censura da , representando o registro irresignado do gênio multifuncional em seu ponto de vista, mesmo tendo sido constrangido a refutá-lo publicamente.  
Provas concretas de que ele realmente tenha feito esse registro não há, mas esse é um episódio no qual a versão é mais importante do que o fato: não se contesta que o pensamento hegemônico dos filósofos, cientistas e teólogos na ocasião era a Terra seria estacionária e, naturalmente, o centro do universo. Pensamento diverso desse era qualificado como heresia e, nos tempos da Santa Inquisição, podia levar as pessoas à fogueira. Assim, gênios como Galileu, que ousavam seguir na contracorrente, eram conduzidos à retratação pública como alternativa ao fogo do inferno.
O legado de Galileu para a humanidade é inquestionável, e isso supera eventuais conjecturas sobre eventual covardia em não persistir na defesa de suas convicções. Afinal, creio que poucos teriam coragem de assumir uma posição de confronto contra o poder clerical cravado não apenas no plano religioso mas, sobretudo, sobre os governantes absolutistas que reinavam na ocasião. O certo é que, se dita a frase (e aí é que situamos que a versão é o que importa, nesse caso), ela tem um significado  muito mais amplo: ninguém pode mudar meus pensamentos e minhas convicções, nem mesmo com o uso da violência. Externamente, o homem pode até se dobrar à opressão, exprimindo coisas que não conjugam com o que pensa. Mas o que está dentro dele, só mudará se ele quiser. No caso, aliás, o futuro deu completa razão a Galileu, e quem teve que se retratar foram os seus detratores.  
Eppur si muove quer tratar um pouco disso. Das ideias que, muitas vezes, são rechaçadas apenas por não se ajustarem o pensamento hegemônico, o que também podem levar seus autores ao cadafalso, se não material, ao menos moral. Mas não há alternativa. A liberdade de pensamento e de expressão ainda constituem os melhores remédios contra o obscurantismo, que não existiu apenas na Idade Média. Está todos os dias à nossa frente, percorrendo nossas ruas, nossas cidades, nossos empregos, nossos tribunais. E a nós, os iconoclastas, resta apenas a irresignação e o eterno inconformismo. Porque, apesar de tudo, a Terra continua em constante movimento...

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