quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Evasão de privacidade


Hoax é o termo usado em informatiquês para designar a disseminação de informações falsas e alarmantes a respeito de um fato, mediante o uso da internet, seja por e-mails, seja por redes sociais. Alguns o chamam de "vírus social", pois se destina apenas a mobilizar as pessoas que, munidas de boa-fé, "caem" no golpe e entopem as caixas postais ou perfis de seus amigos com balelas eletrônicas, correntes, promessas de prêmios ou atos de solidariedade. É o bom e velho "trote", cuja dimensão foi amplificada pela comunicação reticular que envolve grande parte das pessoas em nosso universo.

São inúmeros os exemplos de hoax que circulam pela rede mundial, sendo que alguns têm a capacidade de gerar um grau de mobilização absolutamente intenso. Esta semana, a suposta veiculação de condutas de risco em uma rede social, feita por um programa dominical ressuscitou um boato que já havia percorrido o mundo cibernético há alguns meses. Segundo aqueles que "teriam assistido" à reportagem, se não houvesse uma reconfiguração no perfil dos usuários do Facebook, feita pelos seus amigos, o conteúdo publicado por esse usuário ficaria visível a pessoas de fora de sua relação. 

A história não era verdadeira, como revelaram diversos veículos.  Trata-se de mais um trote virtual, que encheu a paciência de muitos usuários, cujos amigos ficavam reproduzindo insistentemente o "alerta", sem se saber sequer a origem dele. Claro que a maioria fez isso preocupado com sua privacidade, que estaria sendo passível de violação. Mas o assunto revela dois aspectos que me chamam a atenção. O primeiro não é novo, mas adquire certa gravidade que antes não era observada. Quando as informações eram escassas, justificava-se que as pessoas acreditassem naquilo que lessem ou ouvissem, com poucas possibilidades de formularem juízo crítico. O episódio envolvendo Orson Welles e a leitura radiofônica de "A Guerra dos Mundos" é conhecido pelo pânico que causou a muita gente, que acreditava - e não tinha motivos para não acreditar - que a narrativa era jornalística, e retratava um episódio real. 

Hoje, no entanto, isso não tem explicação. O acesso à informação é tão amplo que a assimilação de algo como verdade inquestionável é um tanto inadmissível. Ao mesmo tempo em que temos várias fontes de notícias, temos instrumentos que nos permitem maior segurança na sua confiabilidade. Em outras palavras, cada um escreve o que quiser, e muitos escrevem muita bobagem. Mas nada sobrevive a um mínimo de pesquisa e de conferência, ainda mais se a informação é imprecisa ou vaga. Ou bombástica, como foi o caso.  Nem as fontes tradicionais estão imunes a erros ou à atuação tendenciosa. Os principais veículos de comunicação no Brasil são dominados por oligarquias que interferem nitidamente na linha editorial de suas publicações, e nem sempre produzem resultados efetivamente confiáveis. Isso sem contar que o excesso de publicidade existente nesses veículos os torna suspeitos para abordar determinados assuntos. Por isso, sempre que possível, deve-se recorrer a profissionais de comunicação independentes, que não cedem às pressões profissionais ou institucionais.

O outro aspecto diz respeito à postura dos usuários das redes sociais. Ninguém está ali pensando em proteger completamente suas informações. Caso não quisessem qualquer exposição, simplesmente não faziam parte desses instrumentos, que se destinam exatamente àquilo que indica sua designação: a formação de um complexo de relações entre integrantes da sociedade. Em regra, essas redes são compostas de ferramentas em que o próprio usuário define o nível de privacidade que quer ter. É improvável que isso fique nas mãos de terceiros. Portanto, basta que maneje corretamente as instruções que existem na própria rede para preservar parcialmente aquilo que não deseja tornar público. Quando expomos fatos do nosso cotidiano em redes sociais, o que menos queremos é privacidade. Queremos fazer uso dos nossos efêmeros quinze minutos de fama. Para ficar totalmente imune a isso, só saindo de todas as redes sociais, tornando-se um eremita digital.

Para lembrar: querendo permanecer na rede, a regra básica foi ditada pelo Barão de Itararé há mais de cinquenta anos, bem antes da internet. Não se deve fazer na vida pública o que se faz na privada.         

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