sábado, 22 de setembro de 2012

Clarice na cabeceira e Nina Simone no player

Apesar de ser um leitor compulsivo, nunca tive muito contato com a obra de Clarice Lispector. Puro acidente de percurso ou falta de oportunidade, não sei bem. Pelo que me lembro, li apenas alguns contos espalhados em coletâneas juvenis, como a famosa série "Para gostar de ler..". Mais recentemente, também li alguma coisa em outras coletâneas temáticas, como as organizadas por Flávio Moreira da Costa. Mas nunca li um romance sequer e nem mesmo tenho qualquer exemplar de seus livros em minha biblioteca. 

Há algumas semanas, fui atraído pelo livro "Clarice na cabeceira", da Editora Rocco. Trata-se de uma coletânea exclusiva de contos dela, selecionados pelos seus próprios leitores, que comentam o conto escolhido e as razões da sua escolha, dizendo como foram por eles influenciados. São acadêmicos, músicos, atrizes, escritores, artistas, todos oferecendo uma visão muito particular da escritora e de sua obra, sob uma perspectiva singular. 

Confesso que tem sido, para mim, uma proveitosa iniciação. Dessa pequena amostra de sua profícua obra, é possível extrair-se com nitidez os traços característicos de seu trabalho, marcado pela identificação de personagens com um certo realismo fantástico e, ao mesmo tempo, com intensa profundidade psicológica. Imediatamente lembrei-me de ter lido, há alguns anos, uma adaptação feita por ela de alguns contos de Edgar Allan Poe, na qual é possível identificar elementos interessantes de sua escrita na tradução para o português, tornando-a ainda mais interessante.

Aos que já leram sua obra, é uma oportunidade para reler contos já conhecidos. Para outros que, como eu, leram pouco ou quase nada, uma oportunidade imperdível. Por enquanto, uma frase que me marcou muito: "E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu." (Amor, do livro "Laços de Família"). Mais sutil e verdadeiro, impossível. Quem nunca teve vontade de fazer isso com momentos particularmente prazerosos da vida, invariavelmente fugazes? 


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Não resisti aos apelos comerciais e comecei a comprar a Coleção Grandes Vozes da Folha. Normalmente essas coleções trazem  versões caprichadas, com material bem selecionado e bem produzido, o que muito me agrada. No caso, são CDs que acompanham um pequeno livro com resumo da vida e da obra do cantor/cantora, um trabalho de qualidade feito por profissionais capacitados. Os artistas são, segundo a propaganda oficial, os cantores "mais admirados e influentes" do mundo. E, realmente, só há nomes de destaque internacional, como Sinatra, Bennett, Gardel, Piaf, Aznavour e, inclusive, contores brasileiros, como Elza Soares e Orlando Silva. 

No entanto, nenhum dos CDs havia me encantado completamente, até que cheguei ao número 06, dedicado a Nina Simone. Além de saber informações interessantes sobre sua vida - como o fato de não gostar do uso da expressão jazz para se referir à sua música, que chamava música clássica negra - foi o disco que, até o momento, mais me agradou em seu conjunto, pois me deliciei com rigorosamente todas as onze músicas do álbum, escolhidas com uma felicidade inquestionável.

Vou dividir o final de semana com essas divas. Recomendo, sem medo de errar.

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