terça-feira, 2 de outubro de 2012

Morte e imortalidade



Existem pessoas que estão há tanto tempo nas nossas vidas que temos a impressão de que elas são eternas. Mesmo não nos sendo tão próximas, sua onipresença nos dá certa sensação de imortalidade, de modo que, quando nos vem a notícia de sua morte, isso ainda soa um tanto artificial e custa a ser digerida. Não, eu não me refiro a nenhuma apresentadora de televisão. Embora respeite os que tinham admiração por ela e sentiram sua morte, não me considero exatamente um fã de seu trabalho e da sua personalidade.

 Escrevo, aqui, para falar do historiador Eric Hobsbawn, falecido neste 1o. de outubro, em Londres. Hobsbawn foi, sem dúvida, o maior historiador do nosso tempo, que soube fazer uma periodização da história que levou em conta não somente os paradigmas cunhados pelo eurocentrismo tradicional, presente na maior parte dos estudos de História. Soube, coerentemente com sua linha ideológica, valorizar também outras perspectivas sociais e políticas, dando um sentido de diversidade absolutamente relevante na compreensão dos fenômenos que compõem o percurso da humanidade. Um exemplar muito interessante dessa sua dinâmica é a “História Social do Jazz”, em que destaca esse ritmo musical como criação genuína da população negra que foi escravizada, servindo de instrumento da sua resistência e da preservação de seus valores e significados. Não é casual a escolha do tema, já que ele era igualmente apaixonado pelo jazz, chegando a escrever críticas em uma revista especializada sobre o assunto.

Da mesma forma, nenhum outro historiador deu tanta ênfase à importância do trabalho na evolução da sociedade. Em “Os mundos do trabalho – novos estudos sobre História operária”, Hobsbawn explorou os principais temas da história dos trabalhadores entre o final do século 18 e meados do século 20. É uma obra imprescindível para a compreensão do significado do movimento operário, que culminou, inclusive, com a própria construção do que hoje chamamos de Direito do Trabalho. Leitura obrigatória, sobretudo para aqueles que insistem em formular juízos equivocados sobre o trabalho e em negar a sua centralidade. Hobsbawn, aliás, foi um dos mais importantes intelectuais a rejeitar a tese do “fim da história”, proclamada no final da década passada e que não se confirmou, principalmente com a derruição do sistema financeiro europeu e estadunidense.


 Conheci seu trabalho  quando fazia faculdade, e jamais abandonei suas obras. Foram fundamentais para que pudesse ter uma compreensão mais significativa do meu papel e da profissão que escolhi dentro da sociedade em que vivo. Fará muita falta. Mas Hobsbawn era daqueles que se imortalizam, se não de forma material, ao menos oferecendo um legado insuperável, que ainda permanecerá por muitas e muitas gerações. Felizmente...

Nenhum comentário:

Postar um comentário