Existem pessoas que estão há tanto tempo nas nossas vidas
que temos a impressão de que elas são eternas. Mesmo não nos sendo tão próximas,
sua onipresença nos dá certa sensação de imortalidade, de modo que, quando nos
vem a notícia de sua morte, isso ainda soa um tanto artificial e custa a ser
digerida. Não, eu não me refiro a nenhuma apresentadora de televisão. Embora
respeite os que tinham admiração por ela e sentiram sua morte, não me considero
exatamente um fã de seu trabalho e da sua personalidade.
Escrevo, aqui, para
falar do historiador Eric
Hobsbawn, falecido neste 1o. de outubro, em Londres. Hobsbawn foi, sem
dúvida, o maior historiador do nosso tempo, que soube fazer uma periodização da
história que levou em conta não somente os paradigmas cunhados pelo
eurocentrismo tradicional, presente na maior parte dos estudos de História.
Soube, coerentemente com sua linha ideológica, valorizar também outras
perspectivas sociais e políticas, dando um sentido de diversidade absolutamente
relevante na compreensão dos fenômenos que compõem o percurso da humanidade. Um
exemplar muito interessante dessa sua dinâmica é a “História Social do Jazz”,
em que destaca esse ritmo musical como criação genuína da população negra
que foi escravizada, servindo de instrumento da sua resistência e da preservação de
seus valores e significados. Não é casual a escolha do tema, já que ele era
igualmente apaixonado pelo jazz, chegando a escrever críticas em uma revista
especializada sobre o assunto.
Da mesma forma, nenhum outro historiador deu tanta ênfase à
importância do trabalho na evolução da sociedade. Em “Os mundos do trabalho – novos
estudos sobre História operária”, Hobsbawn explorou os principais temas da
história dos trabalhadores entre o final do século 18 e meados do século 20. É
uma obra imprescindível para a compreensão do significado do movimento
operário, que culminou, inclusive, com a própria construção do que hoje
chamamos de Direito do Trabalho. Leitura obrigatória, sobretudo para aqueles
que insistem em formular juízos equivocados sobre o trabalho e em negar a sua
centralidade. Hobsbawn, aliás, foi um dos mais importantes intelectuais a
rejeitar a tese do “fim da história”, proclamada no final da década passada e
que não se confirmou, principalmente com a derruição do sistema financeiro
europeu e estadunidense.
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